Comecei a trabalhar há alguns meses em uma grande empresa. Há um tempo comentei com um colega durante uma conversa uma ideia para um projeto da nossa área, e agora descobri que ele levou essa ideia para o chefe como se fosse

dele, sem me dar crédito. Acho que ele agiu de má fé, mas ele está na empresa há muito tempo e parece ser amigo do chefe. Não sei se falo com ele diretamente, se falo com o nosso chefe, ou se deixo para lá. Tenho medo de queimar meu filme, mas também não me sinto bem com a situação. O que devo fazer?

Coordenadora, 30 anos

É fato: a confiança entre vocês foi quebrada e esse é um dos maiores desafios que impacta na relação das pessoas. Para as ciências humanas, a confiança é uma hipótese que se concretiza sobre o comportamento futuro do outro. Parte da convicção de que um indivíduo será capaz de agir de uma certa maneira perante uma determinada situação.

Quando alguém confia no outro, está convicto de que consegue prever as ações e os comportamentos desse outro. A confiança vem, portanto, para construir bases sólidas nas relações sociais. Gosto muito de um estudioso do tema conflito, Patrick Lencioni, que coloca de forma bem simples e efetiva as 5 disfunções entre as equipes e os impactos delas nos negócios. Estas 5 disfunções infelizmente estão muito mais presentes nas equipes do que imaginamos, e o resultado é péssimo quando pensamos em construir uma equipe de alta performance.

Trabalhar em equipe é muito desafiador e envolve disciplina, que nos é ensinada desde a infância. Porém, a partir do momento que temos de colaborar com os nossos pares a coisa muda. Irei me ater à tua situação nas disfunções de falta de confiança e medo do conflito. Lencioni define “confiança” como a capacidade de mostrar-se vulnerável aos colegas do time. Se eu não me importo de reconhecer para meus colegas que cometi um erro, ou que não tenho resposta para um problema, é porque eu tenho confiança neles e os mesmos saberão entender e estarão comprometidos com os mesmos objetivos.

A confiança baseia-se na crença da integridade moral, na sinceridade afetiva e nas qualidades de alguém que torna incompatível imaginar um deslize, uma traição. Pauta-­se no sentimento de respeito, concórdia e segurança mútua — ou seja, confiança é previsibilidade de comportamento.

Claramente o grau de confiança na tua relação com o colega está totalmente comprometido e, se isso não for solucionado, ficará difícil você se relacionar com ele daqui para frente. A escolha pode ser deixar para lá, ou enfrentar a situação e buscar eliminar o medo de conflito. Para a maioria das pessoas não é nada agradável conflitar, confrontar ou cobrar crédito do colega.

O conflito baseia-se na situação na qual os interesses dos envolvidos são mutuamente exclusivos, gerando atitude reativa, manifestada por meio de antagonismos. Os comportamentos mais comuns de uma equipe em conflito são reuniões desagradáveis, ambientes em que a política pelas costas e os ataques pessoais crescem, onde ignoram-­se tópicos controvertidos que são fundamentais para o sucesso da equipe, levam ao fracasso o ato de levar em conta todas as opiniões e perspectivas dos membros da equipe, desperdiçam tempo e energia com comportamento artificial e riscos interpessoais.

Acredito que você poderá dar uma chance para este colega e convidá-lo para um almoço e tratar desse assunto. Vá bem preparada com os fatos e os dados que fizeram que essa relação culminasse na falta de confiança. Os argumentos do teu colega terão de ser muito embasados, ou ficará claro que seu comportamento baseia-­se na falta de confiança.

Mostre como você está se sentindo e peça um feedback do que pode ser feito para reverter essa situação, inclusive frente ao líder de vocês. Se houver negação, o melhor a fazer é não compartilhar tuas futuras ideias com este colega. O lado bom é que você aprendeu que existem pessoas com este perfil e o melhor é se proteger deste tipo de profissional.

Nos muitos anos de carreira assessorando profissionais, vejo que um ser humano com este comportamento não constrói relações verdadeiras, cada vez mais pessoas saberão de suas atitudes e se afastarão. E como é cada vez mais comum no mundo atual viver uma transição de carreira, a grande maioria das pessoas irá recusar a ajudá-­lo.

Lembrando que cerca de 70% das novas oportunidades de carreira estão ocultas na rede de relacionamento, nas pessoas que te conhecem e tem a intenção genuína em te ajudar. A carreira é um caminho de longo prazo e cada atitude está sendo observada. O conjunto destas atitudes irá formar a reputação interna e externa de cada profissional.

Caso ele admita o erro e vá em frente com os teus créditos frente ao vosso líder, considero que ele teve uma oportunidade preciosa e generosa de tentar reverter o que fez. Você deu a chance, cabe a ele tentar recuperar a tua confiança.

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Karin Parodi é fundadora e sócia­diretora do Career Center e presidente da Arbora Global.

Esta coluna se propõe a responder questões relativas à carreira e a situações vividas no mundo corporativo. Ela reflete a opinião dos consultores e não a do Valor Econômico. O jornal não se responsabiliza nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.